Entre emoção e planejamento: o que a Copa revela sobre o comportamento financeiro do brasileiro em um cenário de crédito caro
Especialista observa como o desejo de participar da experiência coletiva da Copa convive com um dos maiores níveis de endividamento da história recente do país
A Copa do Mundo de 2026 já mobiliza milhões de brasileiros dentro e fora dos estádios. Em casas, bares e pontos de encontro espalhados pelo país, a preparação para acompanhar os jogos movimenta compras, encontros e pequenas celebrações. Neste ano, porém, essa experiência coletiva acontece em um cenário econômico marcado por juros elevados e maior pressão sobre o orçamento das famílias.
Uma pesquisa divulgada em maio de 2026 pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), pelo SPC Brasil e pela Offerwise mostrou que cerca de 99,2 milhões de brasileiros pretendem realizar algum tipo de compra relacionada à Copa do Mundo. O levantamento aponta ainda que 60% dos consumidores planejam adquirir produtos ou serviços ligados ao evento.
Ao mesmo tempo, indicadores econômicos mostram um consumidor mais pressionado financeiramente. Dados divulgados pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) em abril de 2026 apontam que 80,9% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida, o maior nível da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC).
Para Thiago Savian, diretor comercial da Unifisa Administradora Nacional de Consórcios, a convivência entre esses dois cenários ajuda a explicar uma característica histórica do comportamento do consumidor brasileiro: a tentativa de equilibrar participação social e responsabilidade financeira.
“A Copa tem uma força emocional muito grande porque ela cria um sentimento coletivo. As pessoas querem participar daquele momento, receber amigos, acompanhar os jogos e fazer parte da experiência. Mas hoje existe uma preocupação maior com o impacto financeiro dessas decisões”, afirma.
Segundo ele, o comportamento observado neste ciclo é diferente daquele registrado em edições anteriores do torneio. Em vez de um consumo impulsionado apenas pelo entusiasmo do evento, cresce a busca por escolhas mais conscientes e planejadas.
“O consumidor continua consumindo, mas ele está mais atento. Pesquisa mais, compara preços, avalia formas de pagamento e tenta entender se aquela compra faz sentido dentro da realidade financeira dele”, explica.
Na avaliação do executivo, a Copa acaba funcionando como uma espécie de retrato da relação que os brasileiros mantêm com o dinheiro. Isso porque o evento mobiliza desejos ligados ao pertencimento, ao lazer e à convivência social justamente em um período em que o orçamento exige mais cautela.
“O que a gente percebe é que as pessoas não querem abrir mão das experiências. A discussão deixou de ser consumir ou não consumir. Hoje a questão é como participar sem comprometer o futuro financeiro”, diz.
A pesquisa da CNDL também mostra que 97% dos consumidores pretendem assistir aos jogos de forma coletiva, principalmente ao lado de familiares e amigos. O dado ajuda a explicar por que o impacto da Copa ultrapassa o universo esportivo e influencia decisões de consumo, comportamento e convivência social.
Para Savian, essa mudança de postura pode indicar uma transformação mais ampla na maneira como os brasileiros lidam com planejamento financeiro. “A emoção continua presente, porque ela faz parte da experiência humana. O que muda é que existe uma preocupação crescente em equilibrar desejos imediatos com objetivos de longo prazo. E talvez esse seja um dos sinais mais interessantes do comportamento do consumidor atual”, conclui.
Caroline Lima 11939551669 [email protected]
